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    Uma gigante da floresta no Parque do Goeldi

    A samaumeira conta sua história centenária no Museu Goeldi. Típica da várzea amazônica, a árvore frondosa serve de abrigo aos habitantes da mata. Sua presença sinaliza a existência de cursos d'água e suas raízes servem como comunicação para orientar quem caminha na floresta.

     

    Agência Museu Goeldi - Na floresta ou em qualquer outra paisagem, ela ganha destaque. Sua majestade lhe rendeu o título de “rainha das matas” e “árvore da vida”, designação mais do que justa à grandeza de uma das plantas simbólicas da região amazônica, a samaumeira.

    Ela é a terceira espécie botânica apresentada na série multimídia “As Anciãs do Museu Goeldi”, que presenteia os leitores com matérias, fotografias, vídeos e aquarelas das plantas centenárias da coleção botânica, em comemoração aos 150 anos da instituição.

    O primeiro exemplar da espécie foi introduzido na coleção do Museu Goeldi em 1896 pelo botânico suíço Jacques Huber (1867-1914), responsável pela criação e organização do horto botânico e do herbário da instituição. Este espécime resiste ao tempo e, com cuidados especiais, chega saudável e exuberante aos 120 anos, sendo um dos atrativos que mais encantam o público do Parque Zoobotânico.

    O reconhecimento como imperatriz da floresta vem da opulência da samaumeira (Ceiba pentandra (L.) Gaertn), que na natureza pode atingir até 60 metros de altura e três metros de diâmetro de caule. Generosa, a mãe da floresta abraça animais e viajantes com suas raízes, e oferece o conforto da sombra de sua copa para um descanso.

    Por ser uma espécie de ambientes alagados, como as várzeas, a samaumeira possui elevada quantidade de água em sua estrutura, o que auxilia no crescimento da planta. No Parque do Goeldi, o espécime plantado por Huber tem aproximadamente 40 metros e não desenvolveu totalmente o seu tamanho por estar situado em solo de terra firme, que possui menor disponibilidade de água.

    Apesar de não estar inserida em seu ambiente natural, a centenária árvore do Parque tem um eficiente sistema interno de circulação de água e aproveita o lago dos tambaquis, localizado próximo à árvore, para absorver a água de que necessita.

    “Essa espécie tem um tecido bastante esponjoso, ela tem uma reserva significativa de água utilizada no seu desenvolvimento”, conta Amir Lima, agrônomo e responsável pelo setor de flora do horto botânico do Museu Goeldi.

    A raiz da samaúma, conhecida como sapopema, é extensa, achatada e ligada ao tronco, sendo o principal elemento que caracteriza a espécie. Em contato com outros objetos, emite uma sonoridade que auxilia na comunicação e orienta as pessoas que transitam nas florestas. Assim como a raiz, a copa da samaumeira é ampla, volumosa e suas folhas alongadas possuem até sete divisões (ou folíolos).

    A reprodução da planta é realizada por meio de polinização - feita especialmente por morcegos - e por dispersão de sementes pelo vento, como explica  Ricardo Secco, professor dos Programas de Pós-Graduação em Botânica Tropical, Bionorte e Biodiversidade e Evolução, além de ex-curador do Herbário do Museu Goeldi.

    “Na época da reprodução, os frutos da samaumeira se rompem e liberam sementes muito miúdas, envolvidas por um algodão que chamamos de paina, que tem um papel muito importante nas exportações brasileiras, é conhecida no mercado internacional e servia para preencher travesseiros e colchões”, diz. Já a madeira é leve e mais utilizada na fabricação de compensados e pequenas embarcações.

    O botânico também explica as mudanças que ocorreram na classificação da espécie Ceiba pentandra (L.) Gaertn. “A samaumeira já pertenceu à família das bombacaceas, mas com os estudos recentes de DNA ela foi passada para a família das malvaceae e agora ela é um parente muito próximo do cupuaçu, do cacau e do algodão brasileiro”, conta Ricardo Secco.

    Obtenha informações extras sobre a samaumeira assistindo a um vídeo especial sobre a história e a morfologia da espécie, clicando aqui ou em nosso canal do YouTube.

    História - O ciclo sazonal da samaumeira é bastante evidente, apresentando os fenômenos de desfolha, floração, frutificação e refolha claramente marcados, algo incomum entre a maioria das espécies de árvores da Amazônia.

    Foi este fator que chamou a atenção de Jacques Huber quando trouxe, de sua viagem à Guiana Brasileira (atual estado do Amapá), algumas mudas de samaumeira, juntamente com outras 219 plantas ali coletadas.

    “A floresta amazônica é verde, não tem todos os processos de mudança de cor e de desfolha, como ocorre com as florestas dos climas temperados. São raras as espécies que perdem suas folhas, são raras as espécies cujas folhas mudam de cor dependendo da estação do ano. A samaumeira certamente chamou a atenção de Huber por esta razão”, disse o historiador e pesquisador do Museu Goeldi Nelson Sanjad, especialista em história das ciências.

    Durante um ano inteiro, Huber observou, fotografou e estudou todos os processos do ciclo de vida da samaumeira que plantou no horto botânico. A técnica utilizada pelo cientista na investigação das fases da planta envolveu um método fotográfico específico.

    “É uma arvore com ciclos bastante marcados de desfolha, de floração e de frutificação. Essa também é a razão para que ele tenha se empenhado no registro fotográfico da espécie, utilizando uma técnica próxima da cronofotografia, que pretendia capturar o movimento e a ação do tempo. E Huber fotografou durante um ano, várias vezes, de um mesmo ângulo, essa mesma árvore, justamente para acompanhar toda essa transformação da copa ao longo do ano”, explica Sanjad.

    Baixe aqui um colorido wallpaper em aquarela para seu computador e aqui para o seu smartphone. A tela é assinada pela ilustradora Lívia Prestes.

    Além da árvore centenária, no Parque do Goeldi são cultivados outros dois jovens exemplares de samaumeira, mantidos sob os cuidados de uma equipe dedicada de agrônomos, engenheiros florestais e jardineiros.

    No ano do sesquicentenário do Museu Goeldi, a instituição convida seus públicos a conhecerem a samaumeira e demais plantas da coleção botânica viva da instituição.

    Em outubro, mês de aniversário do MPEG, você conhecerá a árvore mais antiga da instituição, o Guajará.

    Viva Amazônia – A série multimídia sobre plantas de valor histórico faz parte do projeto Viva Amazônia, da Escola da Biodiversidade Amazônica, do INCT/Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia. Clique aquiaquipara acompanhar os dois primeiros episódios da série, que contam as histórias de outras centenárias: a vitória-régia e a seringueira.

    “As Anciãs do Museu Goeldi” foi elaborada em parceria com a Coordenação de Museologia do Goeldi, através do projeto “A transformação da paisagem do Parque Zoobotânico durante os primeiros 50 anos de existência”, desenvolvido pela Dra. Lilian Flórez, e conta também com a colaboração da equipe técnica da Flora do Parque Zoobotânico e das coordenações de Botânica e de Informação e Documentação – todos setores do Museu Goeldi.

    Texto: Mayara Maciel