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    Há mais de um século no Goeldi, a vitória-régia é uma bela joia vegetal

    O Museu convida a conhecer a história e a importância deste símbolo da Amazônia, uma grande atração no passado e no presente da instituição, através desta reportagem, de um vídeo, um gif e tendo como brinde especial um wallpaper com ilustração em aquarela da planta.

     

    Agência Museu Goeldi – Ela é, sem dúvida, uma das plantas mais deslumbrantes da coleção botânica viva do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Um dos grandes símbolos da Amazônia, a vitória-régia marca o imaginário, a identidade e as culturas dos povos da região.

    Sua beleza inspirou mitos indígenas, seu perfume exala doçura e suas funcionalidades são aplicadas à culinária e à medicina tradicional. O belo conjunto, que organiza harmonicamente fortes nuances de cores na planta Victoria amazonica, apaixona e sempre despertou o interesse dos naturalistas.

    Com uma história particular a contar no Zoobotânico do Goeldi, a vitória-régia inaugura a série de reportagens multimídia “As Anciãs do Museu Goeldi”, terceira etapa do projeto Viva Amazônia. No ano em que a instituição comemora seus 150 anos, o Museu brinda seus leitores e seguidores a cada mês, até o final de 2016, com informações sobre um conjunto de plantas de valor histórico da sua coleção viva. As reportagens virão acompanhadas de wallpapers (fundo de telas para smartphone e computador) com aquarelas de Livia Prestes.

    Características - Pertencente à família das Nymphaeceae, a Victoria amazonica (Poepp) J.E.Sowerby, nome científico da vitória-régia, é uma herbácea aquática que apresenta folhas flutuantes redondas que podem atingir até 2,5 metros de diâmetro. As bordas elevadas formam um ângulo de 90º com a base da folha e chegam a medir até 10 cm de altura. No Museu Goeldi há registros de folhas com diâmetro de 2,2 metros.

    Astuta, a vitória-régia se defende como pode. A face inferior da planta é roxa e revertida por espinhos que atuam como defesa a possíveis predadores. Sua base é formada por nervuras esponjosas que oferecem sustentação para suportar o peso de animais, como sapos e garças.

    Já a superfície da planta exibe uma linha central e pequenos orifícios que facilitam o escoamento da água da chuva. Elas gostam de um ambiente quentinho, por isso vivem em várzeas e igapós a uma temperatura que pode variar de 26 a 30 graus.

    Durante o dia, o sol é fundamental para a planta, mas é ao anoitecer que o grande espetáculo acontece. As flores da vitória-régia desabrocham perfumando o ambiente e atraindo besouros que auxiliam na polinização.

    O ciclo da flor dura dois dias. Despertando ao pôr-do-sol, as flores da vitória-régia amadurecem alvas durante a madrugada. Ao alvorecer do dia seguinte, a flor se fecha e ocorre a mudança na coloração das pétalas, indo do branco para o tom rosa. No final do processo, ela submerge lentamente até o fundo do lago.

    As técnicas para manutenção da espécie em ambiente controlado no Parque Zoobotânico do Museu Emílio Goeldi aperfeiçoaram-se ao longo de 120 anos. Hoje elas estão adaptadas em boas condições de existência, exibindo belas folhas e flores, com cores vibrantes e aroma inconfundível.

    História – Por trás do esplendor das imensas folhas verdes coroadas por flores coloridas, vistas atualmente no Parque do Goeldi, há rastros de um passado marcado por tentativas, frustrações e sucesso no cultivo da planta fora de seu hábitat.

    Em 1896, dois anos após a nomeação de Emílio Goeldi como diretor do então Museu Paraense, foi realizada a primeira tentativa de aclimatação da vitória-régia no Parque Zoobotânico, mas o ensaio não apresentou o resultado esperado. Goeldi introduziu a espécie de forma experimental – e sem triunfo - em um lago artificial, que tinha como referência a forma do Mar Negro. A paisagem do lago foi complementada com a construção de uma monumental caixa d’água, que, seguindo a tendência da época, se assemelhava às ruínas de um castelo europeu. Além de fornecer água, a estrutura dotou o Parque Zoobotânico com uma bela vista panorâmica, muito popular até os dias de hoje.

    Enfim, em 1900, a primeira flor de vitória-régia brotou, exalando seu aroma e encantando a população belenense, atraída continuamente para o horto. Segundo relatos, alguns visitantes permaneciam no Parque até o anoitecer, alimentando a expectativa de acompanhar a magnitude do florescimento da “estrela das águas”.

    Dessa forma, Goeldi conseguiu que a comunidade local buscasse ver não somente os animais amazônicos, mas que também entrasse no Zoobotânico para apreciar a beleza das plantas da região.

    Paisagens – A vitória-régia sempre teve lugar privilegiado dentro do Parque Zoobotânico do Goeldi. No passado ou no presente, circundadas por construções ou conjuntos de vegetação ornamentais, a planta é exibida para apresentar ao público a sua exuberância.

    Para ser mantida em exposição, a vitória-régia “passeou” por pelo menos três espaços dentro do Parque Zoobotânico. A equipe técnica removia as plantas em função da baixa incidência de sol nos antigos ambientes, já que a vitória-régia é uma macrófita aquática que precisa de iluminação solar. Mas, em todas as situações, fez parte de harmoniosas composições paisagísticas que destacam, como em um quadro emoldurado, a elegância desse elemento da flora regional.

    No final do século XIX, a intenção de Emílio Goeldi era apresentar as coleções amazônicas inseridas em um “cenário” europeu. Atualmente, a concepção museológica do Parque busca reproduzir as paisagens naturais da Amazônia e enfatiza os processos ecológicos entre plantas e animais.

    “Emilio Goeldi veio da Suíça com muitas das ideias de musealização de espécies, portanto as técnicas museográficas foram importadas. Na atualidade, o Museu Goeldi acompanha as transformações da própria ideia de museu. Busca-se apresentar, da maneira mais próxima, cenografias que remetam ao habitat das plantas. O espaço [Parque Zoobotânico] foi transformado procurando representar e significar a própria Amazônia. Isso diz muito sobre como era feito o Museu Goeldi e como ele é feito agora”, explica a Dra. Lilian Flórez, museóloga e bolsista atuante na Coordenação de Museologia do MPEG.

    Quem visitar o lago da vitória-régia no Museu vai encontrá-la cercada por outras espécies aquáticas, pelas palmeiras açaí e buriti e também por samambaias, um cenário que representa os ambientes amazônicos que sofrem regime de inundação.

    Manejo – Para que mantenham suas cores, seus ciclos, seus aromas e tamanhos adequados, os agrônomos, engenheiros florestais e jardineiros do Museu Goeldi, especialistas em manejo de espécies silvestres, realizam um trabalho de manutenção sazonal, como explica Amir Lima, mestre em agronomia e coordenador do setor de flora do Parque Zoobotânico do Goeldi.

    “Existem dois tipos de manejo. Um deles é feito semanalmente, quando são retiradas as folhas envelhecidas. Isso acontece por volta do 28º dia do ciclo da folha, quando ela começa a se decompor e apresentar alguns furos. Com a remoção dessas folhas, damos espaço para novas crescerem, melhorando a aparência do lago”, disse.

    Outro cuidado da equipe é feito em um intervalo maior. “Nós temos outra rotina de manejo que pode variar entre dois e três meses. Nesse período nós retiramos as espécies de plantas invasoras, porque acabam competindo por nutrientes, e fazemos a adubação do solo abaixo do lago. Nós não podemos encurtar este período porque a vitória-régia é uma planta muito sensível ao pisoteio de raiz. Ela aguenta o manuseio das folhas, mas não suporta maior manipulação da raiz, que é muito fina e delicada”, explica Amir.

    Atualmente, cerca de 10 espécimes de vitória-régia estão alocados em uma lagoa artificial de 600m³, desenvolvendo-se de maneira satisfatória. O principal indicador de um bom manejo é a reprodução da espécie fora de seu ambiente natural, como acontece no Parque Zoobotânico.

    Baixe uma linda aquarela para o seu smartphone ou computadorClique aqui para assistir ao vídeo sobre a Victoria amazonica no Parque do Goeldi. Você também pode acompanhar no canal do Museu Goeldi no Youtube.

    Curiosidades – A vitória-régia apresenta importância medicinal e culinária. É utilizada para a cicatrização de ferimentos e considerada depurativa. A pequena semente é rica em ferro, amido e tem sabor semelhante ao de pipoca - quando submetida ao calor, estoura. Ela também é utilizada no curtimento de peles finas e couros.

    A história da descrição científica da vitória-régia apresenta vários momentos importantes, o primeiro deles foi no ano de 1832, quando o botânico alemão Eduard Friedrich Poeppig publicou um relatório identificando a planta como Euryale amazonica, após sua temporada de investigações em alguns países da América Latina, inclusive no Brasil.

    Já em 1836, Robert Hermann Schomburgk enviou à Inglaterra alguns exemplares encontrados no Rio Berbice, nas Guianas Britânicas. A partir destes espécimes, John Lindley estabeleceu o gênero Victoria e descreveu a espécie Victoria regia em 1837, atribuindo o nome em homenagem à rainha Victoria, da Inglaterra. Mas, na segunda metade do século XIX, o nome científico da planta é definido como Victoria amazonica.

    Lenda – Para os índios tupi-guaranis a vitória-régia é o símbolo do amor de uma guerreira (Naiá) pelo deus Lua. Conta a lenda que Naiá já havia sido alertada pelos índios mais experientes sobre seu destino: tornar-se uma estrela no céu. Em uma noite de luar brilhante, na margem do rio, a guerreira enxergou a lua refletida e acreditou que o deus estava ali a se banhar. Sem pestanejar, atirou-se ao seu encontro e morreu afogada.

    Comovido, o deus lua transformou Naiá na “estrela das águas”, a vitória-régia. O perfume da jovem índia foi impresso na flor branca e é sentido durante a noite para encantar a lua e a todos que sentem seu aroma. As palmas das folhas foram estiradas para que pudessem receber os afagos amorosos da luz lunar.

    Viva Amazônia – O projeto Viva Amazônia apresenta ao público informações sobre o bioma amazônico e os acervos do MPEG no formato de séries de reportagens multimídia.

    A proposta iniciou-se em 2015 com a apresentação do acervo vivo da instituição. Já foram lançadas as séries “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”. O material seriado conjuga jornalismo, vídeos, ilustrações, design e interação com o público das mídias sociais. Clique aquiaqui para ter acesso às reportagens, vídeos, tutoriais e miniaturas das edições “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”.

    O projeto Viva Amazônia é desenvolvido pela Escola da Biodiversidade Amazônica (Ebio), subprojeto do INCT/Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, e pelo Laboratório de Comunicação Multimídia (LabCom) do Museu Goeldi.

    A série “As Anciãs do Museu Goeldi” conta com a parceria da Coordenação de Museologia do MPEG, através do projeto “A transformação da paisagem do Parque Zoobotânico durante os primeiros 50 anos de existência”, desenvolvido pela Dra. Lilian Flórez, e ainda com a colaboração do setor Flora do Parque Zoobotânico e das coordenações de Botânica e de Informação e Documentação – todos setores do Museu Goeldi.

    Em agosto, o destaque será uma das árvores gigantes – a Samaumeira. Siga o projeto no Portal MPEG, no Facebook, no Twitter e no Youtube.

     

    Texto: Mayara Maciel

    Fotos: Amir Lima e acervo Museu Goeldi

    Fotos do GIF “Flor da vitória-régia”: Pedro Pompei Oliva

    Edição do Vídeo: Fernando Cabezas